OS HÍBRIDOS DE VINÍCIUS LOUSA

As referências da infância, em Goiânia, interferem nos trabalhos que ele produz a gigantes como Google, Microsoft e LATAM. Vinicius Lousa, com seus breves dez anos de experiência não se essencializa a uma ou outra plataforma, ele pratica um processo de hibridização entre digital e analógico, entre colagens, texturas, geometrias e cores. Designer gráfico pela Universidade Federal de Goiás (UFG), Lousa atua principalmente como motion graphic designer e consegue, mesmo dentro de contextos mercadológicos, imprimir autoria às suas criações.

Em uma de suas apresentações, você diz que desde pequeno sofreu “influência dos movimentos culturais em seu cotidiano”. Quais movimentos interferiram diretamente o seu processo criativo?

A arte sempre esteve presente. Fui criado atrás do balcão da papelaria da minha mãe e tive acesso a inúmeros materiais como tintas vencidas, papéis velhos e máquinas fotocopiadoras que estimularam minha sensibilidade para misturar tudo isso e criar novas peças visuais. Em contraponto com essa realidade mais orgânica e viva, meu pai é engenheiro civil, por isso os números, os livros de matemática e engenharia sempre estiveram por perto, ao alcance da mão, sendo muito úteis ao meu fascínio por computadores, artigos eletrônicos antigos, câmeras fotográficas e video games que vez por outra eu resolvia desmontar.

A música também é um fator determinante na minha construção artística. Eu tinha todos esses suportes, como as tintas para criar texturas e os recortes para fazer a colagem, mas não sabia desenhar. A música, inicialmente o rock, junto com as estéticas que a rodeava, me fizeram perceber que eu poderia organizar o caos do meu processo criativo. Era o elemento que faltava para que eu pudesse compor uma estética mais autoral. Posteriormente ampliei meus horizontes e o samba, a música latina, o hip-hop, a música eletrônica experimental potencializaram ainda mais a maneira como eu produzo meu repertório.

Eu me sinto um ser híbrido, que transita pelo análogo e o digital, absorvendo todas essas referências para ressignificar, samplear e gerar produtos visuais nos mais diversos suportes, plataformas e expressões artísticas.

A construção do Vinícius que é designer de animação gráfica é primordialmente acadêmica e técnica, ou há construções culturais que se tornaram tão ou mais relevantes que o que foi apreendido nos momentos formais de estudo?

A academia não é tudo, ela te dá técnica e teoria. Eu sempre fui muito de aprender experimentando, durante o processo. Desmontar um aparelho eletrônico, tirar pecinha por pecinha, entender como funciona e daí reconstruir de um jeito diferente.  

As vezes eu vejo uma peça de arte pós-moderna e ela tem um universo de referências. Meu processo é fragmentar, tirar cada uma dessas referências, estudar mais especificamente elas e entender como funcionam no todo. É um processo de remixagem e ressignificação em que esses elementos acabam ficando para o meu repertório pessoal, e que podem funcionar para o processo criativo de outros e novos trabalhos.

Ser Designer gráfico pra mim é isso, observar muito, aprender fazendo, aliar música com experimentação visual e gráfica, desconstruir muitas vezes pra criar algo que tenha um novo sentido.

Muitos de seus trabalhos possuem um caráter comercial significativo. Como é a produzir arte dentro de um direcionamento mercadológico? É possível criar com autonomia dentro desses formatos?

Não é fácil. É um desafio. Quando os trabalhos vem com esse direcionamento estético e narrativo mais fixo, em virtude da questão comercial que você bem pontuou, é mais complicado inovar, mas não é impossível. Recentemente tive uma experiência muito positiva de fazer um vídeo explicativo para uma empresa em que pude imprimir bastante identidade e o resultado foi incrível. Foi cansativo convencer o cliente de que valia a pena, mas fiquei satisfeito em entregar um produto de muita qualidade visual e artística, ainda que estivesse a serviço de um viés bastante comercial.

Quando são trabalhos não tão mercadológicos e/ou quando tenho a possibilidade de sugerir a linguagem visual o processo é bem mais instigante e fluido, porque posso imprimir a minha identidade nos projetos e fazer algo mais autoral. Gosto de flertar com a  colagem, as texturas, as formas geométricas e cores vibrantes. Acredito que muitas empresas me procuram justamente por essa questão, por saberem que eu tenho uma forma de ver o design e de lidar artisticamente com ele.

Seus trabalhos atendem desde vídeos para propaganda de antena parabólica a festival de sexualidade. Como é conseguir produzir de maneira diversificada, mantendo a qualidade dos produtos?

Então, muito doido isso né? Gosto da possibilidade de pesquisar sobre inúmeros assuntos e poder fazer trabalhos que me desloquem da minha realidade. É preciso compreender as temáticas e técnicas que, na maioria das vezes, são muito diferentes entre si e existem requisitos mínimos para se manter a qualidade como ter um bom planejamento e não subestimar a estética que a gente escolhe para contar determinada história.

É preciso respeito e profissionalismo porque até mesmo os trabalhos mais “sujos” e intuitivos precisam ter os borrões nos lugares certos para que o resultado final seja bacana e todo mundo fique satisfeito. Eu sou um cara muito perfeccionista, da paleta de cores, passando pelas animações e composições tudo tem que estar em harmonia pra funcionar na minha cabeça e funcionar também no vídeo.

Muitas de suas criações são consumidas pelo mercado de São Paulo. Você é nascido e criado em Goiânia. Há alguma diferença expressiva por ter sua história fora do eixo de quem consome os seus trabalhos?

Morei oito anos em São Paulo, voltei recentemente com muita vontade de criar e produzir coisas diferentes para o mercado goiano, mas é inevitável que meus trabalhos ainda sejam feitos para empresas de lá.

Na verdade, não acredito que exista uma diferença cultural tão marcante entre os dois estados. Acho até engraçado porque às vezes até parece que a capital de Goiânia é São Paulo, e vivendo lá percebi que a capital de São Paulo é Hollywood, então temos uma fronteira cultural bastante fluida entre esses dois universos que as pessoas insistem em dissociar.

Ao mesmo tempo existe um movimento em Goiânia, que vem crescendo, que é muito bacana da valorização das empresas locais, do colaborativismo, de um ativismo artístico e cultural que visa dar mais destaque para o que é daqui, aliado a elementos de fora.

É a tal da globalização que torna as questões mais líquidas, com margens mais instáveis. Eu acho super positivo que mais e mais empresas e artistas goianos figurem com destaque em outros cenários, para desmistificar esse ranço histórico de que não dá pra fazer tanta coisa legal sendo e vivendo aqui. Por que, basta prestar atenção, temos nomes de destaque na música, no design, na literatura, nas artes de maneira geral.

Quais são as suas principais referências? Há nomes locais na lista de quem te influencia?

Fui muito influenciado pelo David Carson, no início da minha carreira, mas percebo que para muito além de artistas específicos eu curto os movimentos e os estilos como a geometria da arte moderna, da bauhaus e do De Stjil, o pós-modernismo com sua infinita gama de possibilidades e as inúmeras formas que eu consigo enxergar na colagem.

Acho muito bacana o trabalho de brasileiros que realizam projetos para grandes marcas e empresas internacionais como o Nando Costa e a Lobo, que são referências constantes no meu trabalho. Mais recentemente, tenho curtido acompanhar estúdios de design que atuam na área de animação como os argentinos da Plenty, 2veinte e Lumbre e os alemães da Sehsuht, Catk.

Sempre curti admirar e poder conviver com ídolos possíveis, e Goiânia é assim, podemos estar perto ou sermos amigos dos artistas locais que admiramos e das nossas bandas favoritas.  São pessoas que ralam para ter o seu trabalho reconhecido. Essa galera me dá a inspiração necessária para continuar desenvolvendo soluções visuais que saiam do óbvio. Admirava muito o trabalho da Nitrocorpz, me influenciou demais! Assim como eu, uma geração viu que era possível ser legal e ainda viver de design. Hoje em dia tem muita gente boa trabalhando com arte e design e permanecendo na cidade, acho que isso é o mais importante, cada um assumindo o seu estilo e a sua plataforma. Estamos em um momento muito fértil e com muita gente incrível.

É interessante porque as redes sociais e os aplicativos propiciaram um tipo de conexão entre artistas que até então era inimaginável. É possível conhecer novos estúdios, ilustradores, designers e criações com muita velocidade, daí o que faço é catalogar e organizar esses dados que estão disponíveis para ter sempre à mão as referências que eu precisar nos mais diversos trabalhos. A arte saiu dos espaços restritos e exclusivos das galerias e museus para ser incorporada na vida, nas questões do cotidiano, pelas novas mídias. Da capinha do celular até o grafite que a gente vê na rua, tudo está envolvido por imagem: tudo é arte.

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