A OUSADIA DE LUCAS RUIZ

As linhas de Lucas Ruiz abraçam o que dá repulsa. A arte que não teme o feio. As Irinas, personagens recorrentes do processo criativo do artista, se chocam com os olhos dos espectadores. Elas não são rejeitadas, acredite. Elas são acolhidas. É o encontro no feio. É a aceitação de que pode haver beleza no esquisito.

Lucas Ruiz é graduado em Design de Produtos pela Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e trabalha com artes visuais, ilustração e design desde o ano de 2012. Atualmente ele trabalha como designer e diretor de marketing no ateliê Eleonora Hsiung, em Goiânia. Por aqui ele já foi coordenador do Stella Isaac Escritório de Arte, foi cofundador e diretor de arte do US. Estúdio de Criação, além de desempenhar a função de diretor criativo da Os Dois. Em São Paulo, Ruiz trabalhou com a marca Andrea Bogosian. Como artista visual, Lucas cria ilustrações, desenhos, fotos e instalações. As obras de autoria do artista estão expostas no Stella Isaac Escritório de Arte há mais de quatro anos. Lucas Ruiz Já fez ilustrações para a revista Vogue, durante o evento Vogue Fashion Night Out e para a Oppa Design, durante o lançamento da primeira unidade em Goiânia. Também colaborou com ilustrações para publicações nacionais e internacionais como Brainstorm, NONOW e Bride Style. Este ano é participante da Galeria Blackbook exposição coletiva de diversos artistas goianos.

1) Um de seus mais notáveis trabalhos são as Irinas. Como uma criação se torna recorrente, a ponto de marcar uma fase de produção do artista? Qual é a relação com a obra, do surgimento ao período de maturação do trabalho?

No meu caso, a Irina é um elemento recorrente por ser um ponto de acesso ao meu Eu mais íntimo, através dela consigo expor o que estou sentindo e isso é fundamental para criação de uma obra que comunique, diretamente ou até mesmo indiretamente, com o público.  Quase sempre a obra é mutante, do momento em que abro meus cadernos para criar até o momento em que entendo que ela está finalizada. Essa relação é muito orgânica e no meu caso se dá por sentimento, quando as considero finalizadas gosto de deixá-las em observação e daí tentar entender o que elas estão a me dizer, isso funciona como um filtro na verdade. Dessa maneira sei com maior segurança o que posso expor publicamente e o que precisa de mais tempo para maturação, até mesmo porque não tenho muito controle sobre o que me vem em mente quando estou criando, apenas me deixo guiar pela imaginação e pelas referências íntimas e cotidianas.

 

2) A composição estética das Irinas é peculiar. Uma de suas ilustrações continha a figura da Irina, espelhos quebrados e a frase “Do Not Fear the Ugly”. Como é isso?

Acredito que todas as pessoas se enxergam de maneiras variantes, em alguns dias acordamos e ao nos olhar no espelho gostamos do que vemos e em outros, vários, não nos vemos bem como gostaríamos. Quem nunca teve o sentimento de se sentir feio alguma vez na vida, não é mesmo? É exatamente esse ponto que gosto de explorar em meus desenhos, a beleza inerente ao esquisito, e daí a necessidade de não temer o feio, e apenas aceitá-lo, e quem sabe nele se encontrar.

 

3) No seu perfil no Instagram você tem o compromisso de postar um desenho por dia. Como é o processo de criação? Há momentos de hiato criativo?

Esse projeto é um grande desafio, procuro manter sempre o compromisso, embora seja difícil conciliar com trabalho e outros projetos, sempre que tenho alguma ideia, ou necessidade de expressar algo procuro registrar e inserir nas postagens diárias. Às vezes sou tomado pela inspiração e acabo desenhando mais de um por dia, assim consigo gerar conteúdo para a semana.

Sim, existem hiatos criativos, mas os considero revigorantes, me permitem uma pausa e reflexão sobre a  evolução do meu trabalho, analisar técnicas, pesquisar materiais e consequentemente tomar novos rumos criativos.

 

4) Seu envolvimento com arte é diário, é intenso. Qual o espaço que a arte ocupa na sua vida?

Quando se vive intensamente os processos criativos, mais que apenas um expectador, a arte se torna parte da sua rotina, o exercício diário de buscar fontes de inspiração para meus trabalhos me torna mais sensível a tudo de certa forma, com isso é mais que natural me encontrar admirando coisas corriqueiras e em devaneios abstratos.

 

5) Seu novo projeto utiliza como superfície de ilustração o corpo nu. Como é utilizar a pele como mídia de gravação de arte?

É bastante interessante, perceber o corpo como plataforma para os meus traços, as curvas e texturas diferentes formam composições estéticas realmente curiosas. O corpo proporciona prazeres e dores, tristeza e alegria, e é um companheiro presente em todas as facetas da vida, com o qual o ser humano transita pelo mundo e pelo qual sente a necessidade de indagar no seu conhecimento, nos seus pormenores, no seu aspecto tanto físico como recipiente do seu “eu interior”, além do mais, o que acho mais especial é a breve tensão que antecede a liberdade obtida através do acesso à intimidade, e isso é sempre diferente de pessoa para pessoa, o que torna cada trabalho único em todos os aspectos.

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